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Internet abriu oportunidade para uma nova categoria cultural: os escrevinheiros, escritores com espinhos, aquele que incomoda. Escrivinheiros não vem do grego nem do latim, deriva do brasileiro insatisfeito com a péssima qualidade da criação do escritor-espinho.
Mas quem são eles? São escritores que não entendem porque não estão com cadeiras cativas na Academia Brasileira de Letras e, para minimizar tamanha injustiça, espalham suas obras em blogues e e-mails, como se a glória de ter alguém recebendo obrigatoriamente suas poesias e contos pudesse torná-los imortais. São difíceis de engolir mas invadem nossos espaços virtuais com gentis convites de "leia-me" e pedidos de "sincera opinião". Recebemos seus boletins com a graciosa sensação de sermos atingidos por amaldiçoados espinhos.
Suas obras são repletas de incoerências e não raro, abordam um número irrisório de temas. Alguns são tão criativos que chegam a ignorar a importância da ferramenta essencial de suas obras. Magoada e ferida, por pura pirraça a desprezada língua portuguesa faz miséria na obra do escrivinheiro: parágrafos onde não deveriam existir; excesso de vírgulas ou a ausência de, atrapalhando a compreensão; palavras que jamais poderiam ser inventadas não fosse os escrivinheiros, como por exemplo poço no lugar de posso, do verbo poder; com migo, prá minconheçer e filius da mãe no lugar de comigo, pra me conhecer e filhos da mãe.
Como trabalho com pré-edição de textos (limpo as incorreções absurdas para que a editora principal possa, ao menos, entender o texto), constantemente pego construções que revelam a ausência da boa leitura ou de conhecimento básico no escrivinhador. Algumas (muitas) são impossíveis de traduzir da linguagem do autor para a linguagem que conhecemos e são necessários vários contatos telefônicos com o autor para que possamos pegar o sentido daquilo que ele quis dizer. Em vista disso, dá para entender porque o preço cobrado pela edição do texto, ou seja a transformação daquilo que está escrito em algo realmente apresentável, tem que ser alto. Um bom trabalho de edição não sai por menos de quatro mil mas há quem cobre entre mil e quinhentos a dois mil para corrigir vírgulas, pontuações e algumas correções ortográficas sem a preocupação de tornar apresentável a construção de todo texto.
Os escrevinheiros, assim como os escritores, dividem-se em categorias. Há aqueles que acrescentam ao currículo prêmios que nunca existiram ao lado daqueles que dizem que participaram de algum evento que só aconteceu na imaginação do próprio participante. A pior categoria é aquela que engloba os classificados entre os três primeiros lugares de qualquer concurso literário. Despossuídos de senso autocrítico e apresentando-se como escritores por vocação, julgam-se possuidores de talento, de grande e verdadeiro talento e, como tal, suas premiadas obras devem ser de conhecimento do público. Aos jurados dos concursos, presos ao compromisso de apontar alguma coisa que seja, no mínimo, "menos pior", resta assistir com altas doses de ironia sádica, o discurso irrealístico do escrivinheiro vencedor.
Aloha! Namastê! Sawabona!